Pelas ondas que carregam

Imagem Tumblr/ Uma Pegada, Único Vestígio

Águas de Março, por onde andas, carregas histórias. Dos barcos, soltam-se vestígios, grãos de areia de outras praias navegam nessas ondas e atracam aqui. Iemanjá, dona das águas, mandou a maré brandar.

Aquele cais já foi palco de muitas peças de amor. Alguns dramas, encontros marcantes e até alguns homicídios… Porém, nesse dia, como toda paisagem, ele estava vazio. O único som ouvido era de umas gaivotas e o vento soprando cada vez mais.

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Céu nublado

Imagem – Portal Uol / Pingos no Vidro, Cidade Nublada

Hoje, o Rio de Janeiro amanheceu chorando. A cidade estava sem seus raios de sol. No embaralhado do trânsito, pessoas indistintas seguem seus caminhos, espremidos como verdadeiras sardinhas enlatadas, em ônibus.

Os sinos da igreja soam e o eco segue pela praça. “Amém…” é dito com exaustão na voz. A verdade é que o povo carioca não foi programado para lidar com frio. Só com sol escaldante, suor e melanina é que nos transformamos em verdadeiros e felizes protagonistas.

Lá da esquina vem o malandro sambando. Lá da esquina vem o sorriso meio amarelado, porém sincero.

É um verdadeiro desfile nossas calçadas, com mulatas de longos cachos… Mas nesse mesmo dia, só faltava um item para o dia ficar melhor: sol.

Também, no meio da praça, havia um bêbado cantando quaisquer letras de músicas. Ele chorava sob a garoa. O avião cruzando o céu, “Dentro de mais de um minuto ‘estará’ no Galeão”.

São tantos rios, porém há um chamado “Janeiro”, que corre de janeiro a janeiro. Suas águas sambam pelo seu leito. Seu barulho é de um chiado inconfundível.

A cidade, com ou sem sol, continua linda. Todos os seus cantos, contos e encantos permanecem intactos em suas memórias.

E as praias? Estavam vazias.

O coração tem identidade

A verdade é que ele era bem sensível também. Tinha o coração mole. Só um “eu te amo”, já se derretia.

Pedro era quele tipo de carioca nato – a malandragem corria em suas veias. Andava sambando pelos Arcos da Lapa. Ao ranger da cuíca e o choro do cavaquinho, é que sorria mais. Nessa vida tinha três amores, Deus, sua tia Acácia e Marta – aquela paixão clichê de infância.

Todos sabem que o menino é apaixonado, mas ele isola o seu amor por Martinha. É inseguro, se sua amada é a “metade da laranja” dele.

Todas as manhãs, trocas de sorrisos eram vistas nas postas deles, antes de cansativos dias.

Marta mudou. Antes era aquela menina perfeita. Andava belamente, desfilando prosa. Mantinha-se bela. Só que o tempo a mudou, menos um quesito permaneceu intacto pela ação da vida: sua também “paixão clichê de infância” por Pedro.

Parece que o destino às vezes brinca de ser irônico.

O amor conhece o terreno onde ele pousa e o coração a ser de morada. Ele transforma a alma, transcendendo a vida em luz. As “borboletas no estômago”, quando voa, faz a mente flutuar. 

Um fato, os dois têm medo de abrir o coração. 

Nossos corações são codificados, para um dia acharmos números que coincidem. Em certos momentos, há um número errado, no entanto, quando iguais, só o amor pode explicar.

Será que a coragem de declarar o amor surgirá no meio de um medo? Só o irônico destino poderá responder.

Imagem Tumblr/ Arcos da Lapa, Rio de Janeiro

Mãe de ferro

Levantou bem cedo, antes do galo cantar. Preparou aquele café bem forte para acordar. Um novo dia chegou.

Dona Lúcia não via descanso já fazia tempo. Mãe solteira, carregava um filho com a vida. Pedro de sete anos.

Lá no horizonte o sol nascia e a comunidade em que morava acordava junto com o clarão.

Lúcia morava sozinha em um barraco, no alto do morro. Até que numa manhã, Pedrinho a perguntou por que era negro. Sua mãe sem jeito e sem saber o que dizer, respondeu ao menino com outra pergunta:

– Por que filho você quer saber isso?

– É porque mamãe, na escola me chamaram de preto e que eu deveria voltar à senzala – diz o menino com voz tristonha e cabeça baixa.

Lúcia logo tratou de ajeitar seus longos e negros cachos e pensar em uma boa resposta. Porém, ela não sabia como responder o filho. Pois o preconceito já tomara conta da sociedade.

O filho aguarda ansioso pelo argumento de sua mãe, e nada sai de seus lábios. Só o medo de encarar Pedrinho nos olhos.

O menino, sem nenhum conselho, desiste de prosseguir com a sua dúvida. E toma o seu rumo.

Pouco tempo depois, ele já estava pronto para ir à escola. Com a mochila nas costas, lancheira na mão e o rosto pintado de branco. Lúcia, assim que percebeu a maquiagem na face dele, indagou-se o porquê disso. Sem aguentar, uns pinguinhos caem de seus olhos. Ainda enxugando as lágrimas, ele fala ao menino:

– Olha filho, você deve ser forte. Saiba que pela vida, a sociedade irá te segregar por você ser negro. Mas não se abale. A tua raça carregou esse país no braço, ou melhor, ainda carrega. Também construiu esse país! Não legue para o que os outros vão dizer. O sangue que pulsa dentro de mim, tem a mesma cor do seu e de todo o mundo.

Os dois entram em casa para Pedro tirar a sua falsa pele branca. Logo após, mãe e filho descem a ladeira, os dois tristes por terem que aguentar toda essa discriminação calados. Por serem negros, sendo confundidos como pretos. Pois não têm voz, são excluídos – desprezíveis.

Até quando ser negro será um empecilho para viver?

Racismo
Imagem Tumblr / Queimando o Preconceito